Minha mente faz barulho

Não sei se todos sabem, mas sou autista. E TDAH. E, num olhar mais metafísico, sou uma pessoa sensível (em resumo, que capta pensamentos de outros, desse ou de outros planos). Esse caldeirão de pensamentos, sentimentos, sensações, percepções, intuições, ideias, memórias e tudo mais que acontece dentro da minha mente é tão intenso que me cansa demais.

A sensação é a de que minha mente faz barulho. E esse barulho é tão alto que cansa, estressa, me deixa ansiosa, deixa mal estar físico, vontade de chorar, gritar, fugir, me esconder, me isolar, e muitas vezes, com vontade de não existir.

Às vezes o cansaço começa com uma noite de sono mal dormida. A paralisia do sono ataca, sou acordada diversas vezes durante a noite, e quando acordo, já estou cansada. Geralmente essas noites são misturadas com pesadelos intensos, daqueles que sentimos alívio quando acordamos. Quando isso acontece, sei que o meu dia será pesado, e que o barulho da minha mente será alto e precisarei me esforçar o dobro pra lidar com tarefas simples da rotina.

Outras vezes, o cansaço é a ressaca de um dia (geralmente um dia anterior) muito intenso, com estímulos excessivos, barulhos, interações sociais. Nesses momentos, sei que esses impactos ecoarão na minha cabeça pelo momentos seguintes, e novamente terei que me dedicar para lidar com esse caos.

O que é mais difícil, além do caos mental, é a dificuldade que existe em explicá-lo para as pessoas. Me lembra muito a cena de “A Metamorfose”, de Kafka, onde Samsa, o protagonista, acorda transformado em um inseto gigante, e tem dificuldade de se comunicar com as pessoas, que não entendem o que ele diz, ou o que ele sente.

Como explicar o barulho da minha mente para as pessoas?

foto de Francesco Ungaro no Pexels

Trecho do livro “A Metamorfose”, de Franz Kafka: Gregor se assustou quando ouviu sua própria voz responder, era inconfundivelmente a voz antiga, mas nela se imiscuía, como se viesse de baixo, um pipilar irreprimível e doloroso, que só no primeiro momento mantinha literal a clareza das palavras, para destruí-las de tal forma quando acabavam de soar que a pessoa não sabia se havia escutado direito

Não estou, hoje, em um sofrimento como o de Samsa (protagonista do livro que merecia uma resenha aqui só pra ele), mas a dificuldade de comunicação é algo que me incomoda muito, e que ocorre não só em momentos de crises de depressão (como a analogia do livro, ao meu ver, retrata). Quando o barulho da mente é alto, a comunicação fica difícil, e as pessoas não entendem o que eu digo, ou o que eu sinto. Nessa troca com ruídos, precisamos gerenciar a gente, nossa mente (que estamos desesperadamente tentando controlar), e as pessoas, que não entendem (e muitas vezes não querem entender).

Sei que o caminho para lidar com esse barulho é o autocuidado (dá-lhe terapia, psiquiatra, fármacos, meditação, respiração consciente, exercícios físicos, alimentação saudável, sono de qualidade…). Autocuidado que é considerado supérfluo para a maioria das pessoas, mas para gente como eu, é obrigatório. Porém, entender que por mais que as variáveis estejam controladas, esse caos vai voltar, é difícil, apesar de me ajudar a me preparar para ele.

Vai passar. Hoje foi difícil, mas amanhã será melhor. E depois de amanhã, sucessivamente, até eu ficar bem de novo, e me preparar para a próxima vez que o barulho da minha mente ficar alto.